Um transeunte me explicou detalhadamente como eu deveria fazer para chegar na avenida Bandeirantes, pois eu estava com dificuldades de reconhecer a área. Meu sonho sempre foi ver de perto esta importante via cujo nome celebra os feitos realizados pelos de minha classe. Depois de fornecer todas as indicações, o amigável informante ainda teceu elogios ao meu veículo: um alazão semi-novo, único dono, com sela de couro e tração nas quatro.
- Um desses que eu deveria comprar, sabe? Não enfrenta o rodízio, é meio off-road e, na cidade, anda mais rápido que os meus 250 cavalos juntos. O único problema é que não dá pra blindar.
Cheguei na Bandeirantes por volta do fim da tarde, queria apreciar o pôr do sol refletido no Córrego da Traição. O dia estava quente, mas por algum estranho fenômeno da natureza, apesar de não haver nuvens, o céu estava preto, não era possível ver o sol e muito menos o córrego. O seu leito foi transformado em duas largas pistas para abrigar imensas filas de carruagens paradas com um único fidalgo em cada. Curioso. Não encontrei ninguém de janela aberta disposto a me dar informações sobre os principais pontos de interesse da avenida. Nitidamente eu deveria estar no lugar errado. Pensei que minha sorte tinha mudado quando vi um vendedor ambulante de mapas, no entanto ele me disse que era do nordeste e que não conhecia nada da região. Tive o impulso de lhe perguntar porque estava vendendo mapas numa zona onde todos estão parados, mas meus objetivos ali eram outros.
Foi uma criança descalça que, mediante uma moeda, deu a dica que eu precisava. Vejam só, havia um imenso monumento em minha homenagem, não muito distante dali. Fiquei excitadíssimo. De posse das direções corretas, sai em dispara entre as carruagens fazendo "bi, bi" com a boca, truque que aprendi observando os únicos veículos que conseguiam se movimentar rapidamente. Cruzei a avenida Santo Amaro em poucos minutos, só parei para abastecer o meu alazão que é flex por natureza, funciona a base de pasto ou feno e ainda produz metanol, e ir na loja de conveniências que, por sua vez, estava desabastecida de escravos e índios.
Fui me aproximando do que prometia ser o meu Colosso de Rodes. Avistei um enorme boneco de Olinda segurando uma espingarda. Conclui apressadamente que se tratava de um material publicitário destinado a promover algum posto de gasolina. Depois me lembrei que a lei Cidade Limpa não permitiria tal peça promocional. Tive que me conformar. Era eu mesmo só que na versão concreto, mármore e ladrilhos coloridos. Rejeitei aquele espelho distorcido. Depois, encostado na base do monumento, consolei-me pensando que talvez aquela escultura funcionasse como uma Guernica de Picasso `as avessas. Escravizei negros e índios, matei gente. Diante da obra do mestre espanhol você vê o horror da guerra. Diante de minha estátua você vê que horror de Bandeirante. Faz sentido.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
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KKKKKKKKKKKK
ResponderExcluirVer o Tom Wolfe na segunda e ler o Borba Gato no sábado foi demais pra mim. Mas, particularmente, acho o Wolfe muito mais gato do que o Borba.
ResponderExcluirCaro publicitário,
ResponderExcluirAchei tremenda injustiça e desinformação do pretenso contista não citar o fato que há 16 anos, as zélites da Chuiça comemoram o 20 de novembro, vestidos com lençóis brancos furados, em frente a uma das centenas de "maralhavilhas da Chuiça".
Algumas outras, creio que deva saber, são Av. Roberto Marinho, Ponte Otávio Frias Filho, Pça João Batista de Oliveira Figueiredo e, dizem, NunKassab quer mudar o nome do Pq Ibirapuera para Pq Gilmar Dantas. Ah! Esses chuiços...
espetacular. o borba merecia ha tempos uma cronica de nivel para si. é o proprio boneco olinda! a melhor comparaçao para aquela que é uma das coisas mais feias de uma das cidades mais feias, embora eu a adore.
ResponderExcluirFaz tempo que eu não ria tanto!
ResponderExcluirSeu Borba, vejo que o Sr. queria ter uma estrada com o seu nome. Se lhe servir de consolação, tem várias Ruas Borba Gato em cidades como São Paulo, Joinville e Londrina. Pelo menos são pistas de asfalto, né?
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